sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

UMA RELAÇÃO PORNOGRÁFICA II (A cópia das cópias)

Dia movimentado no centro de uma grande cidade. Gente andando pra todo lado, apressados ou não. Calçadas lotadas de pessoas em várias direções, homens e mulheres de todas as idades indo ou vindo de algum lugar com alguma missão. Seja ela trabalho, compras, visita, em vão. 

Isso não importa. Importa sim sabermos que enquanto seguem seu caminho cada uma dessas centenas de pessoas tem sua própria vida, sua própria história. 

Pobres, ricos, miseráveis, todos tem uma vida cheia de sonhos, pretensões, projetos, enfim. Alunos que estudam pra se formar, outros apenas por exigência dos pais ou do sistema, cada vez mais exigente quanto a diplomas e certificados para entrar no mercado de trabalho. Por outro lado mulheres grávidas que contam os dias, torcendo pra chegar no nono mês logo, pra essa criança nascer. 

Algumas dessas mulheres planejaram essa gravidez e estão felizes, outras não. Um acidente de percurso, um erro, sei lá. O certo é que ambas estão grávidas.
Não há tempo pra enumerar tantas pessoas e suas possíveis histórias cotidianas, escritas ao longo das horas e dias afinco.

No meio dessa turba caminha cabisbaixa e pensativa uma mulher, madura, experiente, uns quarenta, quarenta e cinco anos. Uma mulher sem nome, sem endereço (isso não importa). O único registro que se tem conhecimento dela é seu e-mail: mulhersemnome@semdocumento.com.br (que droga de e-mail é esse).

Havia saído do trabalho e caminhava com um rumo certo. Enquanto ela não chega em seu destino, podemos pelo menos imaginar como teria sido sua vida até então. Quando jovem se mudou pra capital pra poder estudar e formou-se em algum curso superior, talvez advocacia, secretariado ou administração. Pelos seus trajes, muito bem vestida, bem maquiada, os cabelos longos tinham passado por uma escova progressiva e estavam lindos, apesar de eu preferir os cacheados. [Que eu tenho com isso afinal, ela é apenas uma mulher numa história]. 

Carregava uma pasta, possivelmente continha documentos importantes. Talvez estivesse indo ao Fórum. Sei, pelo que me parece, ou pelo menos é o que minha mente me manda digitar, ela nunca havia se casado, se preocupou tanto com os estudos que não tinha tempo para os rapazes. Solteirona, morava sozinha e se dedicava ao trabalho e aos seus dois gatinhos siameses que cuidava com o maior carinho em casa. 

Gostava também de plantas e tinha um jardim em casa, onde morava, num bairro nobre da cidade. À noite costumava navegar na internet, passava por sites de relacionamento, talvez em busca de alguém pra conversar, combatendo assim a solidão. Na sala de bate papo apareciam quase sempre o Gatoneblue, a Marysolo, a Soleisolei, a Mimosa, parece até uma vaca. Até o Tição do Barro Fundo aparecia por lá. Algumas vezes apareceu o Desespero Sex em pessoa, virtual claro.

Enquanto isso ela continua sua jornada, as horas vão passando e a noite vem chegando, qual será o destino dela?

Em outro ponto da cidade caminhava um homem, que acabara de descer do coletivo e quase teve sua carteira afanada por um tal de Afanásio Já Sabe. Ele nem percebeu, devido estar concentrado no compromisso que tem daqui a pouco. Mas um policial que montava guarda por ali, percebeu a intenção do meliante e o prendeu em flagrante e descobriu que usava documentos falsos e inclusive o nome era suspeito. 

O coitado foi preso e depois de algemado foi colocado educadamente no camburão corintiano. Essa noite não seria preciso dormir na rua, debaixo do viaduto enrolado em jornais e papelão. Iria dormir num cimento frio do xilindró da 345ª DP.

Bom, voltemos ao nosso personagem. Um cara simples, de pouco estudo, sabe nada de computador e internet. Acostumado a trabalho pesado, mãos calejadas, “geralista” de estádio de futebol, não perde uma partida de seu time. Mas hoje seu destino não é o campo de futebol. Havia dias que este solteirão tinha marcado um compromisso importante que não perderia de maneira alguma. 

Bom, o cara de uns cinqüenta anos, cabelos grisalhos, cortado bem baixo, barba feita, vestira sua melhor roupa. Uma camiseta pólo azul escuro, mangas longas, calça jeans tipo Lee, índigo blue, tênis All Star que comprou numa liquidação, sorte que tinha seu número, 44.

Na carteira quase roubada estava o dinheirinho juntado com sacrifício para gastar sem economia nesse compromisso.

Ele, diferente dela, não tinha estudado além da 7ª série do 1º Grau. Teve algumas namoradas, mas nunca se casou. Suas namoradas sempre o trocavam por um cara mais rico, com carro ou moto. Ele andava sempre de ônibus e às vezes de bicicleta, um camelo velho que ele tinha. 

Decepcionado com os foras das poucas namoradas, desiludiu e não namora faz muitos anos, já até perdeu a conta.

Sabemos então que os dois tinham um compromisso importante essa noite, algo muito em comum. Caminhavam resolutos para o mesmo lugar.

Em instantes ela se aproxima do local, o ponto de chegada, ele também vindo de outra direção. Meio que empolgados e até distraídos do mundo se chocam, ele se levanta e da a mão para ela. Estavam em frente do cinema e ele a pergunta, também veio assistir o filme. Ela diz, sim.

Nossa câmera focaliza o filme em cartaz: UMA RELAÇÃO PORNOGRÁFICA II.

FIM

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